A Anvisa, enfim, mostrou a que veio

A exposição foi chata, foi cri-cri, foi pernilongo, mas a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), enfim, aprovou, por unanimidade, as duas vacinas contra a Covid-19. Há pouco, por conta da assunção de Bolsonaro à presidência, questionava-se os atos das agências reguladoras criadas no governo de Fernando Henrique Cardoso. Professores de direito constitucional, por exemplo, não viam diferença entre elas e as estatais, ainda que os diretores das primeiras não possam ser descartados por mero capricho do mandatário. Eles cumprem mandato e este não coincide com o do presidente da República, justamente para não dar azo às pressões políticas. Mas elas ocorreram, sem dúvida.

O diretor-presidente da Anvisa, almirante Antonio Barra Torres, que é médico, esteve presente em um dos primeiros festivais sem-máscara de Bolsonaro no entorno do Palácio do Planalto, quando os números do coronavírus já demonstravam uma escalada consistente. Contraiu a doença uma ou duas semanas depois e, pelo jeito, deve ter aprendido a lição.

Ontem (17), durante as cinco horas da reunião em que se aprovou, por unanimidade, o uso emergencial das vacinas Coronavac (Butantan) e Coronashield (Fiocruz), os membros da diretoria da Anvisa, com maior ou menor ênfase, repudiaram o negacionismo em voga no Palácio do Planalto (leia-se “ignorância galopante”), e a existência de alternativas terapêuticas e preventivas (leia-se cloroquina, vermífugos e água santa).

Os técnicos da Anvisa foram firmes e diretos, como um soco no estômago: a situação calamitosa, que deu em 208 mil mortes, em oito milhões de infectados e que descambou no colapso sanitário em Manaus tem na “incúria” do Estado o seu principal culpado. Para que não reste dúvida, o Aurélio traz o significado da palavra: falta de cuidado, de atenção, negligência, desmazelo, ausência de iniciativa, de atividade, inércia, inação. É a mais perfeita tradução do (des)governo do capitão. Se Bolsonaro quer fazer uma autocrítica que mande fazer um adesivo com o verbete do dicionário para pregá-lo no avião que fez que foi e não foi para a Índia.

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